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quinta-feira, 16 de abril de 2009

Definhando...


Vislumbro a beleza das cores, o prazer do amor, a liberdade da escolha, o belo da vida. Seria petulância dizer que vivo tudo isso assim ao mesmo tempo, e sempre. Certamente sucitaria inveja numa boa leva de gente. Mas enfim, de vez em quando me vem uma vozinha e diz "olha! isso é liberdade... olha! isso é felicidade...". Tenho pra mim que isso acontece com todo mundo, mas nem todo mundo tem tempo para dar ouvidos a uma voz "imaginária". Eu escuto, pra dizer a verdade, aquele conselho comum, injustamente ridicularizado, que diz: Siga seu coração! Eu sigo.
Presto atenção também nos sinais. Que sinais? Aqueles que Deus nos coloca debaixo do nariz, e ignoramos, seguindo em frente, rumo aos insignificantes moldes ditados pela sociedade. Todos os dias agradeço pela vida maravilhosa, pelo amor da minha família, pela saúde, pelo dinheiro, pela abundância do Universo que me chega, não todos os dias, nem de uma só vez. Mas não deixo mesmo assim de agredecer. Acho que agradecer é importante, não só a Deus, mas a todos que me rodeiam.

Tento também ver sempre o lado positivo das coisas que acontecem. Mas hoje me pergunto: onde está o lado bom da vida? Pelo fato de eu ter minha gata envenenada por uma veterinária! Levei a gata pra prevenir doenças, e a dra. lhe deu uma overdose, ou melhor, veneno e ela está quase morta. Passei dois dias agonizando com a gata paralisada, dando comida e soro com seringa, estimulando ela a engolir. E não houve melhora. Só piora. Já chorei horrores.


O nome do remédio e Ivermectina, popularmente conhecido como Ivomec. A gente usa pra tratar sarna, vermes, carrapatos e pulgas. Só que o Ivomec é perigosíssimo. É remédio pra boi. A dose tem que ser minúscula, e dada somente quando for realmente necessário. A pata deu na gata de 1 mês e ainda exagerou na dose. A gatinha foi definhando, perdeu os movimentos com o passar das horas, até ficar mole, como se estivesse morta, morte cerebral. Terrível! A outra veterinária, esta acredito que seja competente, está cuidando da bebê. Eu não aguentei ver o bichinho imobilisado, com os olhinhos acesos - acho que ela entende, mas as vezes delira. Não consigo entender se sofre ou não. Li num site que ela pode entrar em coma, ficar paralítica, e morrer... Espero que sobreviva e volte pra casa. Foi meu presente de aniversário (desculpa pra pegar mais um gato de rua, mas já era de mim pra mim, tava feliz). Aí eu pergunto, qual é o lado bom da história?

Meu pai e minha mãe tinham um texto colado no armário quando eu era criança que dizia algo do tipo "ande pelo caminho batido, mas não se esqueça as vezes de sair dele e abrir o seu próprio caminho em meio à floresta. Ele é mais difícil, porém mais virtuoso."

Hoje eu tô triste.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Achei mais quatro...

Pode estar parecendo repetitivo, mas vou falar de gato de novo. É meu vício, minha sina, minha paixão.

A história começa com um passeio sem compromisso com minha vó pelo quarteirão. Minha idéia a princípio era dar uma volta na praça ao lado do prédio. Mas a rua de cima estava fechada, em obras. Então, em vez de virarmos à direita, viramos à esquerda. Pela falta de costume, a vó já estava cansada depois de meio quarteirão e quis voltar pra casa. Viramos numa rua que eu nunca pego, a que passa na frente dos prédios Torres do Mar (acho que o nome é esse). Vínhamos conversando qualquer coisa e eis que surge de trás de um móvel jogado e podre, e um monte de lixo na calçada, adivinhem... um gatinho preto, todo preto.

Respirei fundo, olhei pro céu e perguntei: Por quê?

Agachei, fiz carinho, pensando no que fazer. Levar pra casa? Mais um? Mas deixar aqui? E agora? Tadinho! Quem será o fdp que abandonou essa criaturinha aqui sozinha? Enquanto isso a vó se lamentava à minha volta questionando o que eu ia fazer: não vai levar pra casa né? Mas que judiação! Se quiser levar tb, a casa é sua... A verdade é que estávamos as duas relutantes, convencidas de que 'teríamos' que levar o pretinho pra casa.

Fiquei falando fino com ele, alisando e lutando com minhas muitas vozes. Quando levantei e pus as mãos na cintura escutei um miadinho fino e distante. Logo soube: aqui tem mais! Mas cadê?
Comecei a revirar a estante podre, e vi uma caixinha no meio daquele monte de compensado, presa e escondida. Estava fechada. Não conseguia chegar até ela, fui ficando angustiada a ponto de arrancar as tábuas que estavam escondendo a caixa de papelão. O móvel desmilingüiu, caiu de podre, e consegui tirar a caixa, que estava fechada, lacrada praticamente. Coloquei no chão e abri: seis olhinhos azuis me olharam tristes e abandonados. Fazendo as contas, eram quatro gatinhos pretos que alguém deixou ali pra morrer. Presos, quase sem ar e esfomeados, pra morrer de inanição, ou no caminhão de lixo. Que façam o mesmo com o desgraçado!

Corri em casa pra pegar ração e água, e voltei. A vó ficou cuidando deles. As pessoas passavam por nós e olhavam com desprezo. Dei comida, ajeitei a caixa pra eles poderem se proteger e fui embora. Com o coração apertado por não ter condições de levá-los comigo. A vó também ficou triste. Há uma epidemia de gatos na cidade. Eles estão em todas as partes, sobrevivem aqueles que podem. Quem tem os bichanos precisa castrar. É necessário uma ajuda do governo para controlar isso. É um problema sem solução. Sofre quem quer, quem não consegue fechar os olhos, quem é sensível. Eu me remoo todos os dias por causa deles.

A mãe pediu que eu não ficasse triste ou angustiada, que a vida era assim mesmo, que eu não quisesse abarcar todos os males, que talvez alguém como eu passaria por lá e levaria os gatinhos pra casa, ou então eles morreriam, e a vida continuaria seu curso. É isso mesmo o que acontece, mas sempre fico chateada com essas coisas de abandono, da falta de responsabilidade das pessoas em assumirem seus compromissos. Deixei os bichinhos nas mãos do destino. Que ele seja bom com eles, e com todos os animais do planeta, inclusive com o bicho homem. Um pouco mais de consciência é necessário.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Santo Pereira

Tinha um gatinho miando em baixo da minha janela. Algum tempo depois, pensei que tivesse sumido.

Mas ele não sumiu não! Ele se escondeu no clube de remo.

No dia seguinte de seu desaparecimento, quando fui treinar, Pereira, o 'caseiro' do clube me disse: "Hoje você leva seu gato!".

- Meu gato? Ele ainda está aqui? Cadê?

"Ele tá ali escondido", disse ele apontando para um canto cheio de entulhos. Fui correndo e só vi um recipiente de Doriana com restos de comida. Perguntei surpresa (e feliz) se ele havia dado comida pro gato. No que ele respondeu: "Não gosto de ver ninguém passando fome!".

Ah, não sei como explicar minha alegria. Sorri até as orelhas. O coroa gosta de bicho também, pensei com meus botões. Como é bom encontrar uma pessoa de bom coração.

O mais incrível era o gatinho espertalhão, que já havia escolhido seu canto, e brincava alegremente com todo mundo que passava. Já estava se sentindo em casa, feliz da vida.

Isso foi numa quarta-feira. Treinei bastante e quando estava indo embora o Pereira me gritou de longe que levasse o gato embora. Quando fui olhar o bichano, lá estava ele deitadão em cima de um monte de sacos com a barriga virada pra cima, sem-vergonha!

Expliquei que não podia naquela hora, que ia trabalhar mas voltaria a noite. Só que não voltei. O bichinho tinha escolhido o clube por alguma razão e meu maior medo tinha passado: o de que alguém judiasse ou jogasse o gato na rua. Deixei ele lá e só voltei na sexta-feira, com o coração apertado, ainda insegura com a situação do pequeno.

Quando cheguei o Pereira olhou pra mim maroto e falou, "hoje você me leva esse gato daqui! Não quero dor de cabeça."

- Ah seu Pereira, deixa ele ficar, ele escolheu o clube, vai trazer sorte pros meninos, ele gosta daqui. Eu me comprometo a vacinar, trazer comida e castrar. Deixa vai?!

Ele baixou os olhos, pensou um pouco, abriu um sorriso lindo e disse que o gato podia ficar.

Dei pulos de alegria, e acho que o sentimento foi geral, porque os meninos já estavam brincando com o rajado, ele fazendo graça, sabe aquelas que só filhote sabe fazer? Correndo pra lá e pra cá, encantador. E o Pereira já estava curtindo a idéia, dizendo que 'nordestino', quando se acostuma, se espalha... Chamando o gato de malandro! Um sarro.

Agora o clube de remo tem um mascote, que traz sorte e alegria pra toda a equipe. Um gatinho vira-lata, rajado, de olhar esperto, salvo pelo Pereira. Santo Pereira!

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Um gato pra você!

No primeiro andar do sobrado vermelho e branco, com as janelas sobre a rua, fica a minha sala. Cá estou, lutando com os pequenos problemas tecnológicos que minha energia desvirtua, quando estou com raiva. Minha mãe chama isso de poltergeist. Antes eu era um pouco cética, até perceber que realmente, quando passo raiva, o carro não liga, a internet não funciona, a Tv fica fora do ar. Incrível.

Pois estava aqui tentando entrar no Outlook do trabalho há uma meia hora, depois de passar uma hora tentando fazer a Internet funcionar, quando minhas 'antenas' se ativaram subitamente: um gatinho estava miando! Abri o janelão, subi na mesa e me inclinei para espiar. E lá estava ele, minúsculo e rajado, berrando. Algum infeliz acabara de abandoná-lo.

Esqueci tudo, desci correndo as escadas dei a volta no quintal, peguei uns grãozinhos da ração do Greg (o salsichinha mais sem-vergonha que já vi), um copo d'água e saí atrás do gato. Quando abri o portão, ele não miava mais. Cadê ele? me perguntei, será que já sumiram com o pobre?

Aqui na Ribeira tem tanto gato de rua que o pessoal abandona nos becos, que as gatas de rua parem a cada 3 meses, que a gente se acostuma com essa calamidade. Ainda que fossem só gatos a gente se revoltaria e tentaria encontrar uma solução. Mas o pior é que vejo gente todos os dias andando pra lá e pra cá, com um saco nas costas, olhar vazio, perdidas em seus devaneios, sonhando sabe-se lá com um prato de comida, um copo d'água, um banho e um teto pra cobrir seu corpo franzino e triste. São pessoas invisíveis, mas quem olha com atenção, consegue enxergar a crueldade da vida nesse mundo de hoje.

De repente vejo o gatinho correndo atrás de um negro alto, que carregava um vazo sanitário. Ele trabalha aqui do lado. Junto com ele vinha um senhor, de um olho só. Ficamos conversando e o gato em volta da gente pedindo colo. Eu coloquei a comida no chão, alisei ele... mas quando o homem do vazo resolveu andar, lá foi o gato atrás. Ele saiu correndo, para o gato não alcançá-lo, aí passou o senhor que trabalha no clube de remo e o gato seguiu ele pra dentro do clube, e sumiu.

O senhor de um olho e eu ficamos conversando. Eu, sinceramente, estava já pensando em adotar o gatinho. Antigamente teria ido atrás dele, revirado caixas, lixos, móveis, pegado a força e levado pra casa. Mas a vida não é tão simples assim. Ele não me escolheu, nem me deu bola. Ele queria o homem do vazo. Porque é ele que está precisando de sua ajuda. Os gatos protegem a gente. Eu já estou bem protegida, com meus três. Um a mais não ia fazer mal, só bem! Mas ele não ficou. Sumiu.