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domingo, 25 de maio de 2014

Qual cheiro tem o seu céu?



Sabe aquelas noites que você não espera nada? 
Só queria sair, dar uma volta. Pintou um convite. Legal. Foi sozinha pro bairro onde funcionam diversas casas de shows e boates. Combinou chegar as vinte horas e chegou. Os amigos chegaram uma hora depois. Não se importou. Ficou lá, do lado de fora do samba, conversando com o cara que lhe vendera a cerveja e o cigarro. Conversa vai, conversa vem. Ele pediu pra ela cuidar do carrinho dele. Ficou sentada num banquinho improvisado pastorando a cerveja do moço. Quando ele voltou, um pessoal foi se achegando e um maroto perguntou: "Quantas você já vendeu?". "Por enquanto, estou só comprando.", foi sua resposta. "Não seja por isso, o que você quer beber, eu compro de você".
Tomaram uma cerveja do lado de fora esperando ainda seus amigos. Pelo r carregado soube logo que era carioca, daqueles da gema. Ele ficou com ela até os amigos dela chegarem, entrou com eles, encontrou seus amigos já lá dentro e colocou todo mundo junto em volta de uma mesa. Agrupou o pessoal. Quando menos espera, o tal a tira pra dançar, samba a dois! Como assim? E quando deu por si, já estava rodopiando pelo salão. Como dançou naquela noite sem promessas! Além de dançar, ria. Não cabia em si. Há quanto tempo não dançava. Que delícia! Dançar é, definitivamente, uma porta para a felicidade. Para coroar a noite, ele pergunta assim de supetão: "Qual cheiro tem seu céu?". E aquilo soou tão Marguerite Duras que ficou sem palavras. Como pode?

O céu dele tem cheiro de corrida na praia de manhã cedo. De mergulho com arpão pra caçar o peixe que vai assar na fogueira. De cochilar de tarde na rede e fazer amor vendo o sol se por. 

Até agora, não sabe o cheiro do seu céu... Se Duras brinca com nossos sentidos, principalmente no cinema, querendo que ouçamos as imagens e vejamos os sons, lhe parece muito peculiar essa ideia do céu ter um cheiro, cheiro seu, particular. 

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Meu céu tem cheiro de liberdade, de horizonte à vista, de mar azul e clima quente. Meu céu tem cheiro de gato e chamego, de amor, de família, de horta e terra molhada. Tem cheiro de mato e caminhada na trilha. Meu céu tem cheiro de trabalho feito com paixão, criatividade e responsabilidade. Meu céu é um cavalo a galope com cheiro selvagem e forte. O cheiro que quero é de boas lembranças e de coisas novas, gostosas e felizes. Meu céu tem cheiro de água e vento,  de lenha queimando e panela fervendo. Gosto de cheiro de biblioteca, daquelas que ocupam todas as paredes com uma espreguiçadeira no meio e uma luminária bem elegante e eficiente. Meu céu tem cheiro de risada e música boa. No meu céu tem silêncio.

domingo, 14 de abril de 2013

Por que não?


Até onde vai a minha racionalidade? Vermelha pulsação tange a massa cinza. Certamente vai além dessa dicotomia. A razão se vai a noite e volta pela manhã com gosto de guarda-chuva e estrelinhas nos olhos. O que é isso gente? Toda noite isso, por que controlar o que eu não quero controlar? Eu gostaria de fazer, mas talvez não deva. Consequências pairam sobre minha cabeça.

Racionais e controladas são as pessoas. No entanto, acredito que no âmago todos somos loucos, cheios de vontades e curiosidades soterradas violentamente pelos dogmas morais e éticos, e a tão idolatrada razão.

Gosto de simplicidade, inocência. Quando o corpo pede, por que não dizer: “sim”? Porque isso é errado, não pode, é feio. Poxa! Mas não tem problema nenhum. As vezes me passa pela cabeça que ser inocente, ingênuo, viver sem escudos é algo terrível, pois más intenções podem me assolar. Quais são as suas intenções? Nunca saberei senão o tempo. Mas o tempo passando eu não vou ficar sentada em uma cadeira diante da janela assistindo o vento açoitar nuvens. Enquanto o tempo passa tenho que ir vivendo e experimentando mesmo se for para tatear as paredes dessa casa até achar um interruptor. Se achar. Como viver de outra forma? Vivemos perigosamente. Como diz Riobaldo em Grande Sertão, “Viver é muito perigoso... Porque aprender a viver é que é o viver mesmo... Travessia perigosa, mas é a da vida. Sertão que se alteia e abaixa... O mais difícil não é um ser bom e proceder honesto, dificultoso mesmo, é um saber definido o que quer, e ter o poder de ir até o rabo da palavra.” Gênio Rosa.

Quem é que vai? Eu não sei. Não exatamente. Experimentos. Sinalizar o que quero. Como? Se não sei. Não dou, não vejo. Iluminados dias de flores coloridas; uma sombra cobre a gente feito nuvem carregada de chuva. Como faz frio de vez em quando. Quentura danada desse inferno terrestre. Deus existe! Se existe? Como ficar parada diante do movimento do mundo? De pé menina que a terra não para de girar por sua causa! Levanta e sacode a poeira, música boa essa, levanta defunto. Dores e amores. Doce amora. Vam'bora! já sei o que quero: cerejeiras em flor.


sexta-feira, 29 de março de 2013

Deste ano eu não passo! (um minuto)


Deste ano eu não passo! Minha cabeça está girando, ou melhor, o mundo está girando em volta de mim. Me segura que eu não quero cair de cara. Já pensou? Uma velha assim, estatelada no chão? Não dá, por isso que eu não saio. Piscina nem pensar. Aquele chão escorregadio... Você é nova, cheia de saúde e energia. Eu sou doente. Mas vó, o que é que você tem? Como assim o que eu tenho??? Você me faz cada pergunta! Estou velha! Dói tudo, tenho medo de cair e a depressão... Eu tenho depressão sim! Você acha que é mentira, não é não! Então vamos dar uma volta pra ver se você dá uma levantada. Não. Quero ficar aqui no meu canto. Outro dia eu vou. Outro dia é muito longe vó. Hoje não quero, estou com gripe, atchim!

E por aí vai um discurso que por vezes me deixa triste, outras, me faz rir. O que é viver senão um momento? A cada segundo de vida tudo pode acontecer. Quem sabe a vontade dela de ir embora não venha mesmo este ano e aí, fim. Se resguardou tanto com medo de morrer querendo a morte. É contraditório. É. Por vezes estamos tão adestrados ao nosso cotidiano que não percebemos os momentos. Um riso aqui, uma conversa aparentemente sem importância acolá. Pintar o sete!

Eu adormeço ao tic tac das horas, cumpro meus deveres como cidadã, respeito as regras sociais, morais e éticas. O compasso do tempo me embala num ir e vir, do trabalho pra casa, da casa pro trabalho. Uma corrida aqui, um copo de vinho acolá. Estuda, estuda, estuda sem parar. E podem me perguntar onde ficam os momentos nesta história banal de vida adulta? Eu acredito que o momento está na meninice. Ter a criança dentro de mim. Cliché, sim. Quando penso nos meus aprontos, fugindo um pouco destas regras taxativas, sorrio feliz de ter em mim aquela que já fez muita coisa "errada". Prometo, não prejudico ninguém. Fujo apenas, só um pouquinho, das amarras impostas e me sinto viva, mais viva! quando faço uma destas brincadeiras com gosto de coisa errada, mas que na verdade não têm nada de mais.

Até agora rio de correnteza. Escuridão de luz. Um oceano de palavras, tão belas, tão fracas. Ó vida de banho de mar. A lua espia o dia. Ventamos alegria. O tempo voou, e veio me dizendo que é pra eu continuar a achar. E achando ir vivendo de novos banhos de luar.

A lua de ontem me deixou completamente apaixonada. 

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Meu dia

A Internet é uma ferramenta assustadora. Conseguiu me manter 5h ligada em mil assuntos, sem parar. Quando cansava de um passava pra outro e assim ao longo dessas horas... Li sobre guerra, principalmente sobre o Iraque, poxa, preciso entender o que se passa por trás dessa história. Li o Globo, a Folha, London Times , New York Times, Le Temps, Le Monde, e parei. Teve uma ou outra coisa que mudou, mas no geral fiquei na mesma, sem entender nada. Continuo achando que os States invadiram o Iraque para controlar o petróleo. O ruim é provar. Quantas pessoas já não falaram sobre isso? Mas eles continuam lá, impunes, e já estão de olho na bacia de Santos, podem apostar. Enfim, depois de muito ler sobre isso, já desgastada com a história dessa guerra, resolvi procurar instituições que protegem o meio ambiente, e principalmente os animais. Por acaso achei um link num desses jornais que estava lendo. Não me lembro o nome da instituição... Sei que eles protegem os animais selvagens. Ah, foi no Le Monde, tinha uma matéria legal falando que não adianta mais apenas deixarmos os animais selvagens viverem livres. O aumento demográfico da humanidade cresce tanto que temos que criar reservas para proteger os bichos, senão o homem vai acabar derrubando tudo pra caber no mundo. É, realmente o planeta tá ficando pequeno. E como o homem é egoista e ganancioso, antes ele que os bichos e a natureza. Um horror. Vi várias fotos de bichos, tinha uma pintada linda e ameaçada de extinção! Programas de estudos sobre impactos ambietais, o degelo dos polos, o que vai ser dos ursos brancos? Até mandei um email para o relações públicas desse centro, ai qual o nome mesmo? perguntando se existe possibilidade de trabalhar pra eles aqui no Brasil. Disse: "sou jornalista e amo os animais acima de tudo". É uma grande verdade, prefiro bicho a gente. Depois de fuçar bastante, lembrei que precisava fazer uma pauta sobre desenvolvimento regional pro Gazeta Comunitária. Pesquisei um pouco no site do Governo do RN e logo me veio a idéia de falar sobre turismo, o Bê reclamou ontem que ninguém fala de turismo, então vou falar, e melhor ainda, turismo de aventura e ecológico! Tem coisa melhor? Espero que a pauta seja aceita! Terminei de escrever agora pouco. Agora estou no meu momento Blog!

segunda-feira, 12 de março de 2012

Querer a morte

Eu gosto tanto da vida, que quando escuto alguém dizer que quer morrer, começo a chorar descontroladamente. O pior é que hoje duas pessoas bem íntimas me disseram isso: Quero morrer! Que droga. Fico chateada, e depois de chorar lágrimas pequenas, parei pra pensar, pô, se essas pessoas querem morrer, que morram! Depois, horrizada com meu pensamento radical, tentei entender: são pessoas talvez com pouca maleabilidade, sem senso de adaptação, acredito que ambas devido a idade e educação. Eu já pensei em morrer, mas foi em tempos remotos, com o coração partido, era mais um final dramático de um romance de férias. Mas morrer para fugir da vida, dos problemas, das dificuldades não; não é isso que faz a vida mais rica, bonita e aguça nossa criatividade?
Pois bem, depois de aqui começar a colocar meus pensamentos, fiquei mais tranquila. Cada um que cuide de seus dragões. Eu faço o que posso pra ajudar, mas não me venham acanalhar o dia, que já começou meio nublado, mas que depois do balde de água fria, aí que eu tive mais vontade de viver, de acontecer, de lutar. Beijo e boa semana!

sábado, 3 de março de 2012

Bomba?!

Para uma amiga

Tempo de partida.
Pra longe, por amor.
Deixo tudo, menos meus livros, meus vestidos e minha dor.
De coração partido, parto, mas alegro-me em saber que lá me espera o amor.
Tenho medo.
Mas a coragem é maior e a vontade de estar com ele é imensa, intensa.
Ele me espera. Me quer perto dele, para sempre.
Para sempre...
Sempre é vago, nublado, escuro.
Quebrei um candelabro de vidro agora pouco.
Foi nervoso, que novidade maluca.
Bombástica, me disse.
Realmente.
Meus pés estão no chão, mais firmes do que nunca.
Não sei o que faria se tivesse que deixar meus bichos para trás.
Quero assumi-los até o fim. E os filhos?
Kalil Gibran diz que os filhos criamos para o mundo.
Entenderão eles minhas razões? Minha paixão? Meu fundo?
Julgamentos não faltaram nem faltarão.
Mas eu preciso ouví-los, saber o que os outros pensam, busco apoio, mas só recebo nãos!
E isso me dá força: quanto mais nãos eu ouvir, mais forte vou ficar.
Quero casar de verdade, de papel passado, com homem ajoelhado fazendo pedido romântico.
Poemas, palavras, gozo animal. Isso eu não posso aqui e tenha lá.
Vou embora. Adeus vida antiga. Mas eu volto, daqui um ano, com um pai pra minha filha.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Nem tudo que parece, é...

Estive pensando esses últimos meses em como costumo enganar-me. Enxergo aquilo que quero, pinto uma pessoa nas minhas cores favoritas e assim que ela mostra suas garras horrorosas, minha vontade é sair correndo, gritando de raiva, de medo. Raiva de mim e medo da pessoa. Por que prefiro me iludir a encarar a verdade? Porque a verdade dói, dirá um ditado popular. Mas não é melhor doer agora?
Pensei também nas aparências. As pessoas parecem ser tão fortes e seguras e certas de tudo que estão fazendo; por que eu sou este caos? Mas esse é apenas um pensamento desesperado, ninguém é tão perfeito assim. Diz outro ditado: não queira estar na pele de outra pessoa, você não sabe como é o seu dia. Todo mundo tem medo?
Desde agosto do ano passado tenho passado por experiências que me mostram que vale menos a embalagem do que o conteúdo. Parece óbvio, será? Me explico: as aparências seriam a embalagem das pessoas ou a cobertura das situações; seria interessante olhar para dentro delas, ou seja, abrir o embrulho, aceitar o presente ou ignorá-lo. As pessoas não mudam, a menos que esta seja a vontade delas. Consguimos sim mudar certas atitudes, certos vícios, mas a essência não muda, o nosso âmago será sempre este, indefinidamente. Ou aceita, ou muda de calçada.
Meu primeiro encontro com este tipo de pensamento se deu quando vi um casal apaixonado, de você ficar feliz só de ver aquelas pessoas se amando, sabe como é? Pois bem, este lindo amor foi interrompido pela distância e em seguida por um suicídio. Desencanei de tentar entender, me confortei com: nem sempre é o que parece...
Continuei vivendo minha própria paixão, com seus altos e baixos, até que um dia, uma esposa me conta que a ativida de lazer de seu marido é, nada mais nada menos do que matar animais. Pardon? Sim, ele viaja o mundo em busca de uma zebra, de um urso, de um veado, entre outros animais para matá-los, como esporte! Quando eles estão em Pipa e um timbu atravessa o quintal bang! Ela convive com isso porque o ama, mas horrorizada, tentando ver o lado bom disso: conhece muitos lugares bonitos e só tem que tapar os ouvidos na hora do tiro e esconder as peles no armário. E eu achando que o futebol de domingo era um problema.
Depois veio o ataque cardiaco do seu José. Na minha visão, ele era um velhinho direito, que comia bem, cuidava do corpo, da alma, do espírito. Sempre enxerguei ele como ser superior, pleno de conhecimento e atitude exemplar. Pensei que fosse vegetariano, que praticava caminhadas, que comia de maneira saudável; e não é que descobri hoje que ele come de tudo, que se salvou por pouco de veias entupidas e confessou-me no leito da enfermaria, diante da minha perplexidade, que eu enganara-me, que ele era como todos nós, humano.
Por um lado escondo meus defeitos e por outro coloco um tapaolho pra só enxergar nos outros o que me agrada, vivo um fantasia. Vai ver é por isso que a vida é tão complicada, relacionamentos não dão certo, pessoas estão cada vez mais estressadas. Aceitar o outro, e principalmente se aceitar, como é, nu e cru, é uma das coisas mais difíceis que existem. Talvez seja este o processo de desenvolviemento, o da aceita-ação.
E logo leio isso por acaso, em Memórias Póstumas de Brás Cubas:

"[...] advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, à força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa, e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! Que desabafo! Que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso lantejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser!" (Machado de Assis, 1881).

segunda-feira, 6 de junho de 2011

o do meio

Num poema de Clarice que há pouco recebi, ela diz que entre duas coisas, há sempre outra. Por menor que seja o intervalo, sempre haverá algo nele.


Entre dois grãos de areia há um espaço.


Interstícios.


Se olhamos no microscópio uma célula, vemos que é composta por mínimos elementos; até que não vemos mais, mas sabemos que existem.


Mesmo o silêncio preenche a pausa do som.


É o preenchimento total de tudo o que temos conhecimento; de tudo que existe?


A meu modo, entendo nesse momento a importância daquilo que há entre meu anelar e meu indicador: elemento expressivo que auxilia nos momentos de cólera e desprezo, economizando-me belas palavras.

domingo, 27 de março de 2011

Puxa, quanto tempo não apareço. Escrever o que penso, abismo. Tempo absurdo. Tanta coisa aconteceu. Eu mudei certos conceitos. Tanta gente foi e veio. Me sinto no meio. A lua rodou três vezes e minha mãe voltou pra meu pai. Em casa, aguçada a cozinha. Passamos por acontecimentos bizarros. No trabalho... Sempre aparecem coisas estranhas no trabalho. Amo meus alunos. Adoro ensinar. Que profissão boa que foi parar na minha mão. Estou feliz com os fatos. Moro num lugar bom, tenho um bom trabalho, gosto do que faço.

sábado, 10 de abril de 2010

Embalos de um sábado a noite


Sabadão, último dia da semana. Que maravilha!
Sortudos os que terminam a semana na sexta, mas sabe que eu nem tenho vontade disso, pois sábado é o dia que dou mais gás no ganha pão da semana. São horas de aulas com pessoas queridas. Já passou pela cabeça parar com isso, me dedicar mais aos estudos, ter mais tempo pra mim... Mas como poderia abandoná-los? Me divirto tanto, me canso e saio de lá satisfeita. Termino às 5h da tarde estafada, mas feliz da vida. Hoje, exausta, depois de dois aulões de revisão. Afobei os últimos alunos à terminarem logo os diálogos, para não sermos trancados dentro da escola. Achando que já eram 5h40. Mas não, ao chegar no carro descobri que eram 4h40. Ainda faltavam 20 minutos pra aula terminar... Caí na gargalhada. Tenho o péssimo hábito de olhar apenas o lado dos minutos do relógio. Pra mim é um inferno ficar presa às horas. Pra vocês não?
Peço desculpas aí aos alunos que estressei... não foi por mal. As meninas que ficaram por último se voluntariaram a ficar comigo presas, só na água, dentro das grades do IFRN. Umas fofas. Ainda bem que não aconteceu. Graças ao relógio defasado da professora.
Chegando em casa, me pergunto: o que fazer? Propostas de baladas, barzinhos, bateção de perna. Vovó, nos embalos do Raul (Gil, gente), me fez ver alguns calouros de arrepiar. Um moleque de 13 anos incrível. Quase chorei de emoção. Os gatinhos num corre-corre atrás de mariposas perdidas aqui no nono por causa da chuva. Resolvi abrir um Chardonnay. E estou pensando seriamente em ficar por aqui mesmo. Tá tão bom.
Saíria pra dansar salsa. Mas onde? A única casa que tinha, morgou. Ir para aquela curva esquisita, nem tô no clima. Acho que vou ver um filminho, bem comédia romântica, pra relaxar e aproveitar o domingo sem horas de sono acumuladas. Não é uma boa?
E como venho constatando, tudo gira em círculos, o cotidiano é cíclico; o desafio é criar e extravasar dentro disto. Transbordar. Contudo, hoje estou mais para o sossego do lar.

terça-feira, 30 de março de 2010

A vida no prédio

Morar em apartamento tem suas vantagens e, lógico, desvantagens. Mas quero falar aqui dos múltiplos personagens que existem, separados apenas, por finas paredes, o teto e o chão. São consciências com gostos e desgostos. No calar do dia, quando a noite avança de mansinho, é o melhor horário para observar o movimento.
Esticada na beira da piscina escuto uma criança chorar no primeiro andar: é hora do banho. Alguns andares mais pra cima, alguém se exercita no sax. Som muito agradável. Ele embala a lua cheia e as estrelas mais ousadas. Um carro chega na garagem, conversa animada. No salão de festas, as babas estão reunidas para o lanche e fofocas. Enquanto umas oito crianças eufóricas correm em volta do prédio. Até que os maiores se escondem perto da churrasqueira, do menino mais novo. E riem a cada volta que o pitutuco dá, na tentativa desesperada de encontrá-los. Logo, passa a dona do labrador mais lindo, de olhos castanho-claro e hiperativos. As crianças sobem, logo mais seus pais estarão em casa e as babas terão o descanso merecido. E os pais começarão o terceiro turno.
Senti cheiro de carne de panela, pão com queijo derretido e fumaça de cigarro. As televisões estão ligadas, dá pra ver a luz ligeiramente azulada escapando pelas janelas. Algum tempo se passa, e eu sonhando ao som do sax, viajo para outra galaxia. E quando vejo, o prédio silenciou. Hora de se recolher. É noite.
Aí vêm as reuniões, os encontros religiosos, as plenárias, votação para síndico, etc. Pois é aí que começam os desgostos. Esse mês estamos em pé de guerra. A nova síndica e seu marido tomaram providências sem pedir opinião de ninguém, déspotas absolutos. O que vocês acham que aconteceu? GUERRA! Está uma loucura. Ainda não chegamos ao judiciário, mas está bem perto. Eu, que nunca participo destas coisas, ontem fui ver o que estava acontecendo, pura curiosidade jornalística. Anularam a reunião da comissão, com ameaças judiciais. Próxima segunda vai ter a reunião da síndica e acabaram escalando a da comissão pro mesmo dia. Eu quero só ver o circo pegar fogo. São muitas revoltas. Muito egos. Muita coisa. Morar em prédio é uma delícia. Só falta um jardim com horta, privacidade e entendimento geral. Sempre tem uma laranja podre ou um encrenqueiro. Mas isso acontece também com vizinhos de casa, não?
O que mais gosto num prédio é a praticidade e a segurança. E ver tudo do alto. E só.


sábado, 24 de outubro de 2009

Jojo - Jacques Brel

Jojo é o apelido do amigo ciclista (profissional) francês do cantor belga J. Brel. A conselho de um amigo escolhi essa música de homenagem para trabalhar com minhas turmas de francês língua estrangeira. Podem me chamar de louca. No rápido momento que ouvi a chanson achei linda. Ajeitei a letra, pedi pro pessoal da coordenação imprimir e passei pra meus alunos essa semana. São turmas de níveis diferentes. É necessário dizer que cada aluno é um mundo, mas parece que cada turma tem um eu coletivo. Cada qual reagiu de forma diferente.
O nível mais avançado reagiu de forma acolhedora. Estavam mais preocupados em entender as palavras, do que sentir a música. Foram os primeiros. Nem me toquei da grávidade da escolha. A turma intermediária, me acusou de fúnebre. A de nível básico me disse que se fosse o primeiro contato com a língua, teria desistido na hora. Me senti inconsequente. Mesmo assim consegui trabalhar diferentes aspectos da música.
É uma letra insana, de um cara que canta no cimitério a amizade pelo amigo que se foi. É profundo. Mas quem ainda não passou do presente do indicativo e não entende patavinas da língua, fica complicado.
Foi uma experiência interessante. Cobaias? E quem não é cobaia das vicississitudes da vida?
Acho que gostei da letra pois ela está totalmente ligada à minha própria vida. Tenho passado por uma fase difícil da existencia familiar. Uma pessoa muito querida e muito doente. Sabe quando a coisa já fugiu do controle e não sabemos mais o que fazer além de rezar? Pois bem, me perguntaram se eu era daquelas que ri nos funerais. Não sei. A última vez que velei um corpo, tinha uns 10 anos. Hoje com 28 não pisei mais em cimitério ou vi um morto de perto. Pode ser que seja mesmo aquela que tente trazer o riso pra onde só há lugar para o choro. Sou do contra. E afinal, quando não há nada mais que se possa fazer: é rir ou chorar. E se for pra guardar as aparências, a do bufão é aquela que me agrada mais.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Lelé e Dacuca ou O passeio das meninas

Acordei engasgada com o muco. Minha garganta doía demais. Sabe aquela esperança de dias melhores? A gente só sente isso quando tá no aperto. Fui dormir ontem, depois de tomar o infalível Benegripe, achando que ia acordar zero hoje. Acordei. Abri os olhos e vi o teto. Tentei não me mexer, será que não vou sentir nada mais de dor? Concentrei-me em meu corpo e dei a primeira engolida dolorosa do dia. Ai, ai. Levantei com tudo, irritada, e mais uma pontada, agora na nuca. Ai minha cabeça. O chão balançando. Ai, ai, ai. Pior hoje que o nariz estava entupido. Coloquei rinossoro e tomei um banho quente. Fiz chá de erva doce e fui chamar a vó. Estava decidida a ir para o pronto-socorro logo cedo. Três dias daquele jeito não dava mais pra aguentar.

-Quer ir comigo no hospital vó?

Encolhida na cama, disse que sim com a cabeça. As duas muito mal. Às 7h já estávamos a caminho do centro da cidade pra buscar a segunda via da meu cartão do seguro de saúde, que foi roubada. Foi uma hora de enrolação, e eu mal. A vó no carro esperando. Não conseguiram imprimir o cartão, mas garantiram que no pronto-socorro estariam me esperando. Ótimo!
Chegando lá, aquela história de sempre: muita gente. Esperamos.

-Vó pra qual você quer ir: clínico, cardiologista ou ortopedista?
- Primeiro no ortopedista por causa do meu braço. Dói muito.
- Tá certo. Eu vou no geral mesmo. Então vamos separadas viu?
- Tudo bem.

Fui a primeira a entrar. O médico me avaliou como estado de infecção forte na garganta e no nariz. Congestão total. Posso imaginar o desconforto. Não me diga. Vou mandar você pra enfermaria, fazer uma coleta de sangue, um raio X. Raio X? Tá na chuva é pra se molhar. Se tá com medo pra que veio? Fui pra enfermaria.

- Mas vocês vão colocar tudo isso de soro? E que remédio vocês colocaram aí? Pra dor? Hum. Acho que um tubo só é suficiente.

Primeiro ela errou a veia na parte debaixo do braço. Pedi pra ela pegar na mão. Dói. Tirou o sangue e injetou o soro. Olhei pra porta e lá ia a vó numa cadeira de rodas, empurrada por um funcionário, em direção aos raios X. No céu. Depois do resultado, tomou uma injeção de antiinflamatório para o braço.

O soro com o remédio para tirar a dor, não melhorou os picos de calor e de frio, nem os estados de sonolência. Estava ficando com fome também. Encontrei a vó na recepção. Ela esperando agora para ir no clínico geral e eu retornando no meu para saber do laudo. Sinusite. É mesmo? Sim, sim. Antibiótico e corticóide. Ah, corticóide eu não vou tomar. Por que não? Porque não gosto. Tem que tomar, ajuda a diminuir a secreção aqui. Apontou para a região abaixo dos meus olhos.

A vó foi fazer outra radiografia. Não acredito! Estava derretendo naquela sala de espera. Muito barulho, muita gente, um calor, um programinha ridículo na Record, e nem o livro que eu tô lendo me animava. Uns 45 minutos depois ela voltou na cadeirinha de roda. Eu já vinha pensando alguns minutos antes que eu devia ter paciência, compreensão e tolerância. Foi uma eternidade. Quando vi ela chegando com a enfermeira falei:

- Não me inventa mais nada. Preciso ir embora daqui. Como é que foi o raio X?

Paciência, compreensão e tolerância.

- Pega minha carteirinha.

O passeio acabou.

Depois de passar pelo ortopedista, colocaram nela uma faixa para manter o braço dolorido imobilizado. Nossa vó, quanto tempo você vai ter que ficar com isso? Não sei, respondeu séria. Assim que saímos do hospital ela disse que incomodava demais. De lá, fomos almoçar fora pra ninguem ter que lavar a louça. Não é fazer comida que enche, é a louça que pesa.

E a faixinha atrapalhando os movimentos livres de dona Lourdes. No elevador ela disse:

- Não vou aguentar isso. Não tem jeito, gosto de mexer o braço assim. Fazendo círculos.

Entrou em casa e foi arrancando a faixa. Me ajuda aqui!

sábado, 23 de maio de 2009

Colocando um limite

Toda sexta-feira faço monitoria de literatura francesa na UFRN e quando dá meio-dia, vou levar ração pros gatos sem dono do setor V. Toda semana morrem uns e aparecem outros. Essa sexta a novidade era um filhotinho de menos de 30 dias de capa preta e peito branco. Minúsculo, mioso, ainda tinha esperança de encontrar a mãe. Mas isso não ia acontecer. Soltaram ele lá, sem dó, pra morrer lentamente. Me pergunto: por que não matam logo o bicho quando nasce, afogado em agua morna? Ou melhor, por que não mandam castrar a gata?
Lá estava ele, pequenino e faminto.
Tinha um funcionário limpando o jardim. Ele não quis me deixar colocar comida por lá. Disse que gato é a pior coisa que existe, que dá doença. Que tinha passado na TV que o pelo do gato é pior que os germes. Assim, ele falou um monte de coisa mal assimiladas, digeridas, generalizou e tomou partido. Eu vou por comida sim! Ele me disse pra colocar mais longe, dali, pros bichos não fazerem sujeira por ali porque os professores estavam reclamando do mal cheiro. Isso é verdade, tive aula numa sala que estava fedendo merda. Mas aí chegamos ao centro da questão: a culpa é de quem? Dos gatos? De quem os alimenta? Ou daqueles que abandonaram os bichos?
Primeiro, nós temos uma vantagem, deveria pelo menos ser uma vantagem: nós pensamos! Somos dotados da razão, deveríamos saber discernir entre o certo e o errado.
Se eu pudesse, traria todos pra minha casa. Mas o triste é que você salva um, e aparecem dez. Tenho ódio de gente que não tem consciência, que não sabe respeitar as outras espécies vivas que habitam este planeta.
E o pior não é escolher um ou outro lado. Mas sim, ser morno, estar em cima do muro. O lado do tanto faz, tanto fez. Achando que a vida é pra se viver assim, ao sabor do vento, sem tomar partido, sem fazer parte de nada.
A gente tá aqui pra crescer, pô! Pra evoluir como espécie. E não pra ficar igual, ou regredir.
O título desse post é "Colocando um limite", porque eu tive que me impor um limite e não trazer mais bichos pra casa. Já tá superlotado aqui. Mas no final das contas, acabei desabafando, e o que caíria melhor como título seria: Galera, vamos acordar!!! Eu falo de bicho, porque acho que essa é a minha causa, é com o que eu me identifico e gosto mesmo de ajudar, de cuidar e de lutar por eles. Mas temos por aí muitas outras causas, tão importantes quanto, e as vezes até mais. Será que é muito difícil arregaçar as mangas, pegar nas "armas" e ajudar alguém? Fazer alguma coisa todos os dias que não seja diretamente voltado para nós mesmo? O mundo não gira em volta de nossos umbigos, e acredito mesmo que viemos aqui pra completar e não individualizar. Senso de comunidade e não de competição. Ajude o próximo não é só uma máxima bíblica. É algo que deveríamos botar em ação todos os dias de nossas vidas. Pronto, falei.

sábado, 9 de maio de 2009

Receitas da Palmirinha


A vó assiste o programa da Palmirinha religiosamente. É um programa de culinária da Gazeta, pra quem não conhece. Todos os dias aquela "grande mulher", nos dizeres da minha vó, apresenta uma nova receita para os fãs.
Lá pras 12h30, minha vó anciosa, almoça e vai pro quarto. Senta no "trono", uma cadeira maravilhosa hiper confortável, caderno e caneta na mão, esperando a novidade do dia.
- Odara! Hoje a Palmirinha ensinou a fazer um frango... você precisa ver! Temperado com suco de abacaxi!!! Você faz assim...
E aí segue a receita todinha, tim-tim por tim-tim.
Acho legal que ela exercita a cabeça, escreve, assimila e, as vezes, põe em prática.
Pois hoje foi dia de por em prática mais uma das deliciosas receitas da Palmirinha.
Tudo começou com:
- Vó, hoje vou fazer sopa de abóbora. Você vai pra tia mesmo e eu adoro.
Os olhos desesperados da vó demonstraram incerteza, "acho que não vou pra Leda hoje... ai, sopa de abóbora..." pensou aflita, com certeza.
Rapidamente tirou da estante unas 10 revistas de receitas daquele cara "no minuto", acho que é francês. Me deu pra olhar e escolher alguma coisa. Estrategicamente. Olhei como quem não quer nada. Uns 20 minutos depois, ela disse:
- Por que não fazemos aquela coxinha que a Palmirinha ensinou essa semana? É com farinha de milho! Deve ser mto boa.
Eu, muito anciosa com o exame de amanhã, topei. Ainda saí pra comprar um vinho!
A fome que me atacou as 9h30, passou nos preparativos.
Cozinha frango, desfia, refoga. Isso a vó fez.
Na hora da massa... que horror.
Ela tentou fazer, mas não tinha força, quase queimou. Fiquei histérica-controlada. Peguei a colher de pau, e nada, ela, a massa, não se movia... Meu Deus e agora? Joguei a massa na pedra. Lembrei que uma vez o Raphael me disse que tinha que sovar ainda quente. Meti a mão e... queimei. Lógico!
Já estava puta nessa hora. E a vó dizendo: põe farinha, lava a mão, faz isso, faz aquilo.
Divino amor. Divino amor. Divino amor.
- A Palmirinha tem um espátula de metal que ela mexe e rapidinho a massa tá boa. Acho que preceisa cozinhar mais. Acho que precisa de mais farinha.
- Vó, fica calma, vai ter que ser assim mesmo, não tem mais jeito. Tentei ME acalmar.
-Essa merda não tem jeito, nunca mais eu faço isso, quando alguém me pedir coxinha mando tomar naquele lugar. A vó tb estava indignada.
Começamos a fazer as coxinhas com a mão cheia de farinha de trigo, pra não grudar. Até que deu certo, aparentemete estava dando.
Aí a vó disse: - teve uma mulher que ligou pra Palmirinha e disse que as coxinhas dela abriram quando ela fritou! Imagina acontecer isso? Eu nunca mais faço coxinha.
- É vó, primeira e última.
O que a gente chingou pra enrolar essas coxinhas... até a vó falou palavrão! No final, deu certo, até demais. As coxinhas foram aprovadas. Suculentas. Uma delicia! E o vinho caiu mto bem também. Santa Helena, sauvignon blanc.

Segue a receita da massa. O recheio cada um faz como bem entender. Foi o que a gente fez.
1 xícara de farinha de trigo
1 xícara de farinha de milho
250 ml de caldo de galinha
250 ml de leite
50 g margarina
Joga tudo numa panela e mistura até soltar do fundo.

Boa sorte!!!

terça-feira, 28 de abril de 2009

Dona Encrenca & véinha Cricri - O barraco

Num dia ensolarado de começo de ano no Brasil, dona Encrenca chega em casa com novidades.
-Tem um muquifo ali em cima, no meio da calaçada, atrapalhando a passagem das pessoas! Um absurdo. Isso pode?
-Ai Encrenca, deixa estar! Suspira Cricri.
O muquifo em questão é um barraco que serve comida, bebida, salgado, etc., em cima do passeio público numa rua do bairro de Capim Macio. É um quadrado de madeira de 1,5x2m, fogãozinho de acampamento, uma pia improvisada, sem higiene e serve o pessoal mais simples que vem à Zona Sul trabalhar, e a partir das 10h é reduto de vagabundos. O que fazem?
-Assistindo jogo de futebol numa televisãozinha ridícula e enchendo o cú de cerveja! E além do mais, ficam com aquele olhar espantado olhando pra nós, cabeças pontudas (definição de paulistas pra dona Santana-CE).
-Ai, você já vai brigar!?, Cricri geme.
Mas o que estava realmente incomodando dona Encrenca, não era o barraco propriamente dito, mas a atitude da responsável. Uns dias antes, muito agressiva e grosseira disse:
-Não quero saber de gato aqui não! Esses gatos ficam incomodando meus clientes! Eu quero que eles sumam!
-Mas olha, eles estão aqui, porque alguém soltou e por causa da comida que vc serve aqui no meio da rua... dona encrenca, tentando se comunicar.
-Por mim esses gatos já tinham sumido!
No dia que dona Encrenca chegou em casa reclamando do muquifo, foi porque os gatos que alimentava tinham realmente sumido. TODOS! Ela estava literalmente puta da vida. Quinze minutos depois já tinha ligado para a Sensul e denunciado o negócio ilegal.
Já relaxada, dona Encrenca resolve em casa uns probleminhas com a véinha Cricri, que não sabe comer sem sujar o chão, e que para piorar, come toda hora.
No outro dia, dona Encrenca descobre que um dos gatos ainda está por lá, enfiado atrás do barraco e não sai nem a pau. É Joana, arisca, que com certeza tentaram pegar, ficou assustada e não sai mais do buraco. Tenta entrar num shoppingzinho que tem por trás da rua pra ver se pega a gata. Está P.R.O.Í.BI.D.A. de entrar. Alguém reclamou.
-Sabe, tem horas que dá vontade de desistir... afirma Encrenquinha.
Dona Encrenca dá a volta de novo e seguindo Encrenquinha vê a mesma ir direto para a responsável do barraco.
-Oi! Quero saber quem foi que pegou esses gatos e pra onde eles foram levados! Vc contou uma história, a sua empregada contou outra, quero entender!
-Agora você vai querer visitar o gato? perguntou ironica a mulher.
-Pode até ser. Pelo menos quero ter certeza que vcs nao maltrataram esses bichos!
Furiosa, a mulher gritou:
-Eu não tenho tempo de ficar olhando gato! Vc pense o que quiser. Ta sabendo que me denunciaram?!?!
-Não. Por que?
-Eu lá sei! Não fica aqui na minha frente, vai-te embora! Isso é um absurdo, por causa de gato, ainda mais de rua! Tô aqui fazendo meu trabalho honestamente. Pega esse gato e some!
-Nossa assim que vc trata os clientes.
-Vc nao é minha cliente! berrou.
Nisso, uns 7 camaradas estavam sentados olhando pra elas, atônitos, ou bebados, se perguntando: Mas que diabo tá acontecendo hein?? Manda dá um coice de mula nesses gatos! Cumé que pode? Traz mais uma cerveja.
-Credo! Como vcs são briguentas! Como é que pode? Diz véinha Cricri desolada e vai por quarto assistir televisão.
-É pra acordar as pessoas! diz Encrenca ao quarto vazio.
Miau.

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

Ribeira


Ribeira. Bairro portuário. Cheiro de peixe no ar.

Estou vindo há quase um mês para a Rua Chile trabalhar, chego às 9h e só saio quando já está escuro. No começo vinha de carro, mas o preço da gasolina me fez refletir e deixar de besteira, pegar ônibus era a melhor solução para vérios problemas, entre eles meu estresse no trânsito e a falta de tempo para ler os livros da monografia.

Nas primeiras semanas voltava pra casa. Logo comecei a ficar por aqui, mas nem punha a cara pra fora da empresa. Agora que venho de busão e passo por vários lugares até chegar aqui, cresceu a curiosidade de ver o que me rodeia. Hoje foi o primeiro dia que saí pra dar uma volta no quarteirão. As pessoas me olham estranhamente, como se eu fosse de outro planeta. E será que não sou?

Dei a volta, indo pro lado direito, passei na frente de bares e restaurantes que só conhecia a noite. Muita coisa está fechada nesse horário de meio dia. Vi duas gatas pretas prenhas. E um gato rajado, que deve ser o pai dos futuros filhotes de rua. Muita gente caminhando pra lá e pra cá, procurando um lugar pra comer. O que não falta são restaurantes self-service, de R$ 5,00. Já sei onde comer quando tiver algum dinheiro. Por enquanto estou dura.

Passei em frente a Tribuna do Norte. Será que é bom trabalhar lá? Devia deixar um cv... mas o jornalismo é mto elitista e seletivo. O ideal seria conhecer alguém lá dentro, pra me indicar. Mas a fila de indicados é bem grande, e o jornal, bem pequeno, como todos por aqui.

Virei a esquina e entrei na rua das peixarias e lá no fundo via-se o porto. O 'grande' porto de Natal. E subiu subitamente aquele cheiro de peixe podre e passado. Quase vomitei. A vida de pescador deve ser muito dura, mas muitos não trocam por nada nesse mundo. Eles estavam lá, sentados na sombra, alguns deitados, esperando sabe-se lá o que.

Entrei na rua do meu trabalho, estava quase deserta, ouvia-se apenas o grito e riso organizado de crianças. Vi uma mulher sentada no chão em frente a porta que eu ia entrar, conversando com um amigo imaginário. Na verdade ela estava discutindo com ele. Quando me viu ficou sem graça, mas logo continuou o falatório. Entrei. Subi aquela escada imensa e cá estou, doida que o dia acabe e eu vá pra casa. Para ficar por lá.