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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

Te amo, te odeio

Calo a boca, fico em silêncio.
Não consigo dizer o quanto te amo e te odeio, quase ao mesmo tempo.
Enroscada a você, a noite me penetra.
O dia contudo me traz a punhalada do desprezo.
Presente você é, quando presente.
Quando longe, deixa de existir, desaparece.
Não se importa, ocupado demais com seu umbigo.
Sempre pronto a ajudar quando requerido.
Se não pedem, não levanta um dedo.
Deixa a vida se encarregar de tudo, lentamente.
Nenhuma atitude. Sabe esperar e o devagar é quase sempre.
Ao contrário de você sou eu. O oposto atrai?
Senti um amargo estes dias, como vai, dormiu bem?
Dormi. Ponto final.
Nada.
É chocante, dá uma revolta. Parece desconsideração.
É seu jeito. Curto e grosso.
Mesmo assim não me conformo.
Então porque insistir no que não me faz bem?
No que você deixa o tempo levar eu quero controlar.
Quero presença, mesmo ausente.
Você é um vazio, inexistente.
Já senti saudade.
As vezes penso; cada vez menos.




sábado, 3 de dezembro de 2011

Prisão/Liberdade

"Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. - Sou pois um brinquedo a quem dão corda e que terminada esta não encontrará vida própria, mais profunda. Procurar tranquilamente admitir que talvez só a encontre se for buscá-la nas fontes pequenas. Ou senão morrerei de sede." Clarice Lispector.
Esse trecho foi retirado do livro Perto do coração selvagem, que estou lendo para escrever um artigo para uma disciplina da universidade. A primeira parte quase todo mundo conhece, pelo menos quem gosta de literatura. É quase reconfortante saber que não fomos os únicos, em nossos pensamentos obsessivos, a pensar que tipo de liberdade é essa que queremos em oposição a que vivemos. E quando Clarice diz que o que realmente deseja ainda não tem nome, nossa, é quase um gozo. Você também sente isso? A sequência do pensamento, que só tem acesso quem lê o livro, é quase explicativo. Somos brinquedos de dar corda, animais domesticados, funcionando através de metas e objetivos exteriores a nós. O exemplo mais gritante é eu estar lendo esse livro não porque quero, mas porque sou "obrigada" a ler, porque preciso a partir dele criar ligações com certas teorias do desejo e escrever um artigo que já está escrito pela metade. Bem, talvez esse blog seja o meu querer fazer por mim mesma. Pois escrevo pra vomitar o que me angustia. Seria isso uma fuga? Uma solução? Terapia?
Esse ano termina lindamente, até nas coisas que não me dediquei, eu passei, e a minha corda ainda está funcionando. Tic, tac, tic, tac. Sou uma caixinha de música, daquelas que a gente tem na infância (quem teve a sorte de ter uma?) e funciono. Passei em tudo que queria passar, realizei tudo que queria realizar, não ficou nenhuma frustração, nada mesmo, estou encerrando o trabalho lindamente, chave de ouro mesmo, com direito a culinária para os alunos (fico generosa nessa época do ano). Mas continuo me sentindo angustiada, apesar de ter dado tudo certo. O que é certo?
Meu maior desejo nesse momento é pegar minha bike e pedalar até Pipa. Mas não posso ir sozinha, não posso ir agora, não posso!? Entendo pois esse trecho de Clarice como uma revelação: podemos tudo, contanto que estejamos no compasso da canção.

domingo, 3 de outubro de 2010

Nada como um dia depois do outro

Pensei que seria fácil,
mas nunca é.
Pensei que ia sempre sorrir,
mas a boca amarga.
Pensei nas possibilidades:
elas são criadas por você.
É um caminho só, uma vida inteira acreditando nisso,
por que cogitar aquilo?
Na encruzilhada escolho a via que me parece acertada. (Às vezes chata, duvidosa, dolorosa.)
Como já me falou um grande amigo: "Sejamos superficiais, medíocres! Seria tão mais fácil, né Dara?" Mas nenhum dos dois consegue.
Ficamos com:
"Escolha sempre o caminho mais difícil."
Ele é solitário e incrível.
O conhecimento de si é como olhar o oceano: de longe parece piscina,
no entanto, guarda em sua profundeza grandes mistérios.
E dá medo.
Incompreensão das correntes, dos bichos, da escuridão e das tempestades.
A roda continua girando e lá de baixo olho pra cima e torço pra ela subir logo.
Me abalo um pouco.
Acho que decepção é um dos piores sentimentos que existe.
Vejo hoje a cultura com outros olhos, com uma visão um pouco mais ampliada.
Sei que somos diferentes, que existem ene maneiras de ver o mundo.
E por que isso me incomoda?
Olhar para o outro de um sétimo andar (Sartre conta isso em uma de suas histórias) como formigas que passam, dá uma sensação e mesmo uma posição de superioridade. Mas ela é frustrante e incompleta. A minha humanidade vai além.
Só se pode conhecer o outro, andando lado a lado.
Buscar compreender o seu processo, os seus caminhos, as suas complicações.
Sou feliz por estar aberta a novas possibilidades, mas isso não significa que tenho que gostar.
Mas por que me incomoda?
Ter opinião e aceitar a sua liberdade (que acreditamos possuir) é mais difícil do que se imagina.
Nisso, penso na massa manipulável que se deixa guiar como um rio pelas encostas até chegar num rio maior e depois no mar, ou num lago. Sem pensar, sem olhar, sem perceber.
Nadar contra a corrente, então. Esse é o caminho.
Duro é saber como. Acho que nunca se saberá.
Porque é intuitivo.
E cada dia, uma novidade.

Tenham bons sonhos.

sábado, 17 de abril de 2010

Coisa pra mim?

- Você sabe coisar?
- Eu coiso, tu coisas, ele coisa. É uma coisa de louco essa mania...
- Pega aí esse negócio, e coisa!
- É passe de mágica?
- Tá entendendo.
- Às vezes não. Mas eu sei que quando nós coisamos, tudo fica acertado. O vós coisais saiu de moda...
- Mas a moda é essa: coisa pra mim? Se eles coisam, por que que tu não coisarias? Entende: você pega a coisa, e coisa! Tá feito!
- Mas coisar o que?
- Tem tanta coisa pra se coisar...
- Que cada um coise a sua coisa! Tem umas coisas que não dá pra aguentar...
- Mas a gente coisa assim mesmo! Tá entendido?
- Acho que tá.
- Então, coisa!

sábado, 13 de junho de 2009

Debaixo do Cajueiro


À sombra do grande Cajueiro,
o tempo descansa.
Quem cansa é o pensamento solto,
o pássaro afoito em busca do fruto.
O sol estala no céu azul claro,
e o vento, voa!
Debaixo do Cajueiro, só calma.
Nada se mexe, aparentemente.
A parte as formigas que nunca param,
e a cigarra que não se cansa de cantar.
Folhinhas soltas caem levemente sobre a relva.
As flores rasteiras não se movem, comovem-se,
respeitosas ao silêncio tão sutilmente imposto pela árvore majestosa.
A sombra convida ao sonho.
Uma rede se estende entre os galhos contorcidos.
Viola no colo,
chapéu na cabeça,
sorriso largo na boca,
de papo pro ar.

sábado, 6 de junho de 2009

Afinidade


É vontade de mais e mais.
Parece que flui: pensamentos, falas, sensações e sentimentos.
Cresce o querer.
Fui para a magia da India e não sei de que maneira voltar à realidade fria.
Vou conseguir. Nós podemos tudo!
Diante do palácio-tumba erguido por amor,
Quero sentir Taj Mahal.
Where is the love?
Faz dias que ouço a mesma trilha sonora "Mélange",
organizada pela minha mãe com músicas de Isaishi, Enia, Villa-Lobos...
É tranquilizante.
O Universo corre nas veias, ódio e amor da humanidade.
Mais ódio, menos amor.
Como podemos ser tão maus e irresponsáveis?
A água varre de mim a desesperança, assim como a música e os gatos deitados no sofá.
E tem o sol, o canto dos pássaros, o verde da mata, o mar...
Sou parte desse universo organizado com perfeição,
mas que tornamos tão complicado.
Somos como as cordas do violino, devemos estar sempre afinados com a orquestra para que de nós saia o melhor e mais belo som.
Eu afino, estico, me dedico à melodia da vida, dolorosamente sometimes, mas sempre feliz de estar aqui.

terça-feira, 3 de março de 2009

Bachianas

Brasil. Vida de cão. Qual terá sido a motivação primeira dessa citação? Vida de cão com dono, ou sem dono. Hoje assimilamos com uma vida difícil. Mas será que sempre foi assim? Brasil. Ordem e progresso. E onde vai parar essa evolução de país? Estamos ao lado da China, da Índia e da Rússia em termos de investimento. Somos atraentes ao olhar estrangeiro. Nâo só dos gringos investidores, atraímos também os puteiros, os aventureiros e toda uma sorte de -eiros que querem sentir na pele o exótico, o incerto, o maleável e indelével jeito brasileiro. Que "boa" vida temos! Somos o país do carnaval, do churrasco, das mais diversas paisagens e climas, bichos e plantas que só na Amazonia contam mais que aqueles reunidos no restante do mundo. Somos plural, múltiplos, profundos poços de não-saber. Li num livro que herdamos do português o gosto pela aventura, do índio a intolerância às regras e o nomadismo, do negro a bondade de um povo que teve a alma roubada, e ainda assim se submeteu ao chicote de seu algoz. Aí está uma bela mistura de um povo que age e não pensa, que usufrui e não cuida, que cede e não aguenta. São tantos nãos que me vêm à cabeça, negação de tudo e ao mesmo tempo o tudo querer. Isso é ser?
Mas aí, quando ouço as Bachianas de Villa-Lobos, vejo que tem querer, expressão de um não sei o que. Mas que é lindo. E me toca de tal maneira a alma, e posso ouvi-lo initerruptamente, até adormecer. Aí em meu sonho serei guiada pela entoada de uma sereia. Planerei acima do mar e das montanhas, junto das águias em busca daquele canto sofrido e lindo. Amor. Sofrimento. Dois sentimentos amalgamados. Quero voar. Já me sinto agora mesmo pisando nas núvens de um saber que desconheço.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Scleranthus

Quero o nada,
mas também quero tudo.
Verdade mesmo,
é que não sei o que quero.
Vivo com sono,
uma canseira que tomou conta.
Cansada de tentar,
falhar e levantar de novo.
Medo de machucar-me,
e perder o centro outra vez.
Estou segura,
mas incompleta.
Me falta algo, não sei ao certo o quê.
Ou sei?
Suspeito.
Sempre falta alguma coisa.
Nunca estou por inteiro.
Sou aos pedaços, espalhada.
Nessa minha caixa, que criei sozinha,
tenho segurança, paz e vazio.
Tento me aproximar das pessoas,
mas não quero que se aproximem demais de mim.
Como já disse, tenho medo.
O medo atrasa o conhecimento.
Se perco o medo, caio no outro extremo,
me dou por inteiro e isso também não é bom.
Perco o centro, a personalidade, me perco.
O que será pior, ou melhor, senão ficar nessa vicissitude,
nesse ir e vir, sozinha, acompanhada,
mas no final, sem nada.
Assim atraio e afasto ao mesmo tempo as pessoas.
Jogo a isca, e depois faço careta.
Confusão.
Passo alguns dias absorta em pensamentos,
um, dois, três dias de meditação e logo passa,
volto à minha vidinha segura.
O único momento em que esqueço a armadura em casa,
só porque não cabe na mala,
é quando viajo.
Aí é aventura e vale tudo.
Tudo é válido.
Difícil é encarar a vida como uma viagem.
Mas seria perfeito se eu conseguisse.
É quando me sinto melhor, quando estou por aí,
me aventurando, amando,
aprendendo com as pessoas e com a vida.
Sem medo, nem receio de ser feliz.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Viva o pensamento

Me falta coragem de continuar.
Já não aguento mais a pressão e a falta de bom senso.
Sabe o que penso?
Em jogar tudo pro ar, fazer as malas e viajar.
Ver o mar e nele tomar banho. Nua. Longe da civilização.
Um lugar fora do mapa. Que ninguém conheça; apenas eu.
Mas não posso partir antes de dizer poucas, boas ou ruins, coisas que não tenho coragem ou vontade de dizer hoje, mas que estão entaladas na garganta.
Um dia sei que vou vomitá-las. Deus me acuda!
Se faz necessário dizê-las, para dar continuidade, pra passar pra outra fase.
Falar o que penso, não cabe em todo contexto.
Controlo minha língua e deixo o pensamento solto.
Penso cada coisa de louco!
Idéias malucas, algumas violentas, outras mais amenas.
Penso demais.
Ah! como é bom viver livremente, mesmo que muitas vezes seja apenas em pensamento.
Fazendo o que quero a todo momento.
Entristeço.
"Isso não é possível minha filha!".
Quantas vezes já não escutei essa frase, com a boca amarga.
De todos os tipos de pessoas que já cruzaram a soleira de minha alma.
De repente essa frase me despertou revolta; num revés de humor, tristeza; e ontem, o choro, aquele choro de criança mimada que foi contrariada.
Esperneio. Se eu quero, por que não pode?
Que mania de impor limites...
Certamente, pra algumas coisas, limites se fazem necessários, imprescindíveis mesmo!
Como limite para homem tarado.
Ah! esses precisam de limites bem restritos e claros, senão dá tudo errado!
Mas limitar sonhos é sacanagem. E a vaidade?
A vida é feita de sonhos e nunca deixarei de sonhar.
Quem já perdeu a crença nos seus sempre é tempo de retornar.
Viva plenamente, indiferente e verá!
Tenha uma boa vida!

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O caminho das quatro estações


Existe um caminho que nem sempre, por sorte, é repleto de gente, barulho, confusão. Muitas vezes ele fica silencioso, como uma floresta européia no outuno. Só se ouve o barulho do vento varrendo as folhas caídas no chão, se vê uma luz morna do sol que está morrendo no horizonte, e a estrada pela frente. Aquele que escolhe trilhá-lo, percebe uma tonalidade alaranjada, com tendências para o marrom, para o amarelo e para o vermelho.

Caminhando por esta estrada o ser sente a força do inverno que se aproxima e que espreme o tempo da passagem do sol pelo continente. Sentimos paz. A certeza de um inverno após um outono, que foi precedido por um verão. A perfeição da natureza!
Em momentos de calma e tranquilidade é quando melhor se pode prestar atenção no que se passa ao redor, e também dentro de si. Não é tudo um reflexo mesmo?

Vejo a bagunça, a vida morna, o desleixo coletivo, como quem olha um animal morto na beira da estrada, com tristeza e indignação.

O outono europeu é um momento particular, aquele que precede a morte simbólica, o inverno, quando começam os preparativos para o fechar-se em si. Passado esse processo, se morre. E morrendo percebe-se o quão a vida é boa para ser vivida intensamente, amada, respeitada. Tomam-se providências e resoluções, e se prepara para renascer, como a Fénix que nasce eternamente das cinzas.

Depois da longa espera durante um inverno cruel, as vezes nem tanto - acontece que ele pode vir em boa hora, quando precisamos de calma, e fechar-se é a melhor coisa que pode acontecer - observa-se as primeiras folhinhas verdes nas arvóres até então ressecadas pela intempérie. É mágico! A vida novamente. Quando acreditávamos no fim, eis que a natureza renasce. É uma explosão de cores e sons, uma sinfonia natural, que alguns compositores e artistas se aproximaram em suas obras com maestria, mas ela é inimitável, porque é perfeita.

O descobrimento pessoal é como o processo natural das flores, dos bichos, da natureza, nos fechamos em nós mesmos na passagem do inverno algoz, ibernamos, e despertamos maravilhados com a primavera que surge em nós.
Refletimos. Aprendemos. Amadurecemos. Assim segue a vida, cíclica, representada pelas quatro estações.