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quinta-feira, 28 de março de 2013

A lua


Li está frase hoje no livro Ravissement de Lol V. Stein de Marguerite Duras e como ela se encaixou bem a nossa belíssima noite de hoje: 

"l'étandard blanc des amants dans leur premier voyage flotte toujours sur la ville obscurcie."
(tradução literal: o estandarte branco dos amantes em sua primeira viagem continua a voar sobre a cidade escurecida) 
Por Raoni Kunkler

Alguém acompanhou a lua crescente estes últimos dias? Majestosa, flutuando no céu anuviado, da mesma forma como ela muda as marés, ela também me transforma. 

Lá vai ela, alta no céu agora, tive a sorte de dar com ela ainda perto do horizonte. Assisti seu movimento ascendente de dentro d'água, hipnotizada. Tenho duas opções: acreditar ou não na magia da lua, na sua influência, assim como a de outros planetas sobre minha pessoa e sobre o mundo. Prefiro acreditar e observar. 

Boiando, fiquei cara a cara com o universo. Contei estrelas. Vi nuvens passarem açoitadas pelo senhor vento. E ela, estandarte branco dos amantes, iluminou a minha noite. Boa noite. 

sábado, 3 de dezembro de 2011

Prisão/Liberdade

"Liberdade é pouco. O que desejo ainda não tem nome. - Sou pois um brinquedo a quem dão corda e que terminada esta não encontrará vida própria, mais profunda. Procurar tranquilamente admitir que talvez só a encontre se for buscá-la nas fontes pequenas. Ou senão morrerei de sede." Clarice Lispector.
Esse trecho foi retirado do livro Perto do coração selvagem, que estou lendo para escrever um artigo para uma disciplina da universidade. A primeira parte quase todo mundo conhece, pelo menos quem gosta de literatura. É quase reconfortante saber que não fomos os únicos, em nossos pensamentos obsessivos, a pensar que tipo de liberdade é essa que queremos em oposição a que vivemos. E quando Clarice diz que o que realmente deseja ainda não tem nome, nossa, é quase um gozo. Você também sente isso? A sequência do pensamento, que só tem acesso quem lê o livro, é quase explicativo. Somos brinquedos de dar corda, animais domesticados, funcionando através de metas e objetivos exteriores a nós. O exemplo mais gritante é eu estar lendo esse livro não porque quero, mas porque sou "obrigada" a ler, porque preciso a partir dele criar ligações com certas teorias do desejo e escrever um artigo que já está escrito pela metade. Bem, talvez esse blog seja o meu querer fazer por mim mesma. Pois escrevo pra vomitar o que me angustia. Seria isso uma fuga? Uma solução? Terapia?
Esse ano termina lindamente, até nas coisas que não me dediquei, eu passei, e a minha corda ainda está funcionando. Tic, tac, tic, tac. Sou uma caixinha de música, daquelas que a gente tem na infância (quem teve a sorte de ter uma?) e funciono. Passei em tudo que queria passar, realizei tudo que queria realizar, não ficou nenhuma frustração, nada mesmo, estou encerrando o trabalho lindamente, chave de ouro mesmo, com direito a culinária para os alunos (fico generosa nessa época do ano). Mas continuo me sentindo angustiada, apesar de ter dado tudo certo. O que é certo?
Meu maior desejo nesse momento é pegar minha bike e pedalar até Pipa. Mas não posso ir sozinha, não posso ir agora, não posso!? Entendo pois esse trecho de Clarice como uma revelação: podemos tudo, contanto que estejamos no compasso da canção.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Confusão de junho

Entre livros, conflitos e nomes estou eu.
Sozinha.
É com gosto que leio "A estrutura da lírica moderna", de Friedrich.
Sempre quis entender a poesia moderna e nunca ninguém tinha me indicado um caminho...
Na angústia de um trabalho à apresentar em meio às feras acadêmicas, estou eu.
Metida.
Lendo e lendo, feliz da vida.
O feriado de hoje é a glória: poderei ler na minha rede, tranquilamente, os poemas de Drummond.
Queria vislumbrar o mistério da "Lição de coisas".
E do macro partir para o micro: preciso comparar poemas.
Poemas de amor, destruidor e egoísta.
Intitulei (aconselhada) o trabalho, "Os amores difíceis", parafraseando Italo Calvino.
Foi assim, entrei nessa por instinto e agora não sei se minto...
Aflição.
Paixão.
Apesar de tudo que ainda tenho que aprender e ler e ver e ouvir,
sei que a fonte é inesgotável,
sinto que estou na via certa, porque tudo isso me proporciona um grande prazer!

domingo, 20 de setembro de 2009

Só porque eu gosto

José
Carlos Drummond de Andrade

"E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?

Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio,

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?

E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio – e agora?

Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?

Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!

Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, para onde?"

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Análise poética e Marcelo Mirage

Ninguém deveria analisar ninguém. O Marcelo veio me falar de análise poética, o quanto isso é absurdo. Cada um tem para si a poesia que entende. Ele afirma que o mais importante é a emoção que aquelas palavras despertam na gente. É o que fica. A pureza da coisa. Então como é que vem um professor detonar com nossa fantasia? Isso é terrível. Enquadrar uma coisa que é infinita. É como se um adulto dissesse para uma criança que sonhos não existem. Um homicídio interior. Não existe jeito certo de ver o mundo hoje em dia. Não existem mais bandeiras para defender. Marcelo diz que nos tornamos sarcásticos diante da vida cotidiana. Antigamente demandavam seriedade, hoje olhamos irônicos.
O que dividiu o pensamento humano foi especialmente a Segunda Guerra Mundial e seu genocídio. O Holocausto como muitos costumam chamar. Fomos mesmo capazes de tais atrocidades? O homem se viu mal. Injustiça é pouco para significar o que o povo judeu já sofreu em sua existência na Terra. Mais uma vez o Marcelo disse: os grandes homens da modernidade eram judeus. Marx, Einstein, Freud, entre outros que ele citou e eu não lembro os nomes agora. Os grandes eram judeus. Os que trouxeram algo importante para a humanidade eram judeus. Por quê? Porque eles se preocupam com a educação. Eles dão muito valor aos estudos. Lêem muito, pesquisam, questionam, justificam e buscam sempre.
Depois da guerra perdemos a seriedade. Que choque. Um homem só, convenceu uma população inteira (praticamente) de que aquele povo ali, que sabe fazer dinheiro, é inferior aos arianos, de cabelos louros e olhos azuis (questão de pele de novo?!). Olha que Hitler nem era alemão e nem era louro dos zói azul. Não. E através da propaganda convenceu uma nação. Para mim ainda é difícil entender como.
Mas enfim, o papo era a análise poética. O Marcelo não suporta quando dizem um jeito certo de analisar poesia. Aquele jeito quadrado: herói, anti-herói, estrofes, versos e bláblá. Mas agora ele vê também que não basta apenas ter um conhecimento mais elevado, tipo conhecer o contexto histórico, a história do poeta, suas manias e jeitos. Isso dá uma visão de entre-linhas, claro. Mas também não é o único jeito. Ele diz que hoje em dia importa muito mais as lágrimas que um poema tira de sua mulher, do que o significado que o próprio autor tentou passar. Talvez seja esse mesmo o objetivo da poesia: sussitar emoções, independente do entendimento. Pois, podem ser tantos. Eu gosto desta maneira legère de se poder ver os versos. Prefiro muito mais uma dança livre ao ritmo das palavras, do que uma marchinha militar. Pas vrai?

terça-feira, 14 de julho de 2009

Fria! Eu?


Lendo o romance da Fernanda Young, "Carta Para Alguém Bem Perto" (RJ : Objetivo, 2001), me identifiquei demais com a personagem principal: Ariana. Não que a vida dela seja igual à minha (mas os seus pensamentos...). Ela é casada com um cara podre de rico, dono de uma rede de supermercados - Lisboão - que adora ela do jeito que ela é. Tem uma filha, que tem um cachorro chatinho. A narrativa se desenrola, no geral, em duas épocas diferentes, intercaladas assim, ao longo das 383 páginas. Tem também uns capítulos nos quais ela, Ariana, escreve num diário, ou cartas para um amante platônico que tem o escritório na frente da sua escolinha de balé. Isso mesmo: balé. Na parte em que ela está em São Paulo, ela tenta ocupar o tempo. Porque ela não tem nada pra fazer. Vive sozinha em seu apartamento duplex enorme e perfeito, enquanto seu marido trabalha e sua filha vai para a escola. Em casa, os empregados fazem tudo. Ela fica no ócio de não sabe o que fazer. Suas atividades são: ir ao balé (por querer dar sentido à sua vida) e encontrar-se com o analista (que no final, ela manda para aquele lugar). Não se conforma ter que pagar alguém pra ficar ouvindo suas lamúrias sem resolver nada! Ela não vê a análise como um trabalho à longo prazo. Quer resultados imediatos. Resolve voltar a fumar maconha. O marido acha a idéia estranha, mas não contraria a esposa. Sabe que ela é excêntrica. E adora isso.

A outra parte da história acontece na Europa, onde ela encontra com o amigo gay do marido, Bruno, que tem Aids e está com os dias contados. Resolvem viajar para aproveitar o momento, como uma despedida feliz. Eles alugam um carro e rodam a Côte d'Azur, Italia, Suiça, Alemanha em alguns dias. Ao som de fitas-cassetes de músicas cafonas, ou antigas, o que intensifica o espírito consumista de Ariana. Ela só pensa em ouvir o barulho da maquininha do cartão de credito! Os dois descobrem que se amam. Amor daqueles que se sonha. Enfim.

Teve um trecho no qual Ariana, pensando com seus botões, revela idéias que não são só minhas! (sic). Acredito, agora, que muita gente deve ter essas "crises" de pensamentos. Ou não? Segue um pedacinho do devaneio abaixo:

"Não pode ser. Não posso ser assim. Estar dessa forma, existir. Por quê? Será que todo mundo sente isso? Essa esquisitice enquanto respira? Todo mundo pensa enquanto respira? Pensa em cada bocado de oxigênio que entra e que sai, depois, já estragado, já gás carbônico? Eles sentem assim, da maneira que eu sinto? Gostaria de saber se as pessoas ficam pensando sobre o ar ou se apenas o respiram, de forma simples e vital. Queria saber se é mais agradável ser outra pessoa. Se é bom sentir-se outro. Num corpo mais gordo - será mais macio existir dentro de 90 quilos? O gosto da boca, a sensação de estar vivo, seria diferente? Porque há sabor de vida dentro da cavida bucal. Há microorganismos vivos por todos os cantos da gente. Alguém aí sente isso? Como eu sinto, desde menina, cócegas estranhas, que me inquietam e agoniam, por causa desses seres viventes, que têm funções biológicas que nunca entendi. Quantas bactérias carrego comigo? Por que, afinal, essa complexidade toda? Essa chatice indagativa existencial?
Por que não sou burra? Por que eu não sou uma mesa? Simples como uma mesa. Óbvia como uma mesa. Prática. Aceitável. Necessária."

Bom, Ariana sofre de depressões e euforias descontroladas. É meio louca. E quem não é? Ela não mede palavras e faz o que quer. Mesmo assim, se sente vazia. Até que alguma coisa importante - e trágica - acontece. Sua vida muda o curso. Ela assume uma nova atitude. Assume o papel de uma outra mulher. Em cada mulher, acredito, são tantas personalidades. Temos que escolher qual cai melhor para determinada situação. Tô mentindo? Ela toma as rédeas e assume sua nova vida. Não vou contar o que acontece no final. Odeio quando me contam o final! Quem se interessar, que leia o livro! Eu adorei.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

"Entre quatro paredes", Jean-Paul Sartre

Huis clos, em francês, é uma peça de teatro escrita por Jean-Paul Sartre no ano de 1944. Todos devem saber que a Segunda Guerra Mundial estava chegando ao fim. Mas as pessoas que viveram essa época ainda não sabiam. Os campos de concentração já haviam chegado ao conhecimento de boa parte da população mundial. A sociedade estava horrorizada, havia uma grande oposição ao genocídio e à arbitrariedade do regime, contudo ainda havia aqueles que apoiavam o regime e a idéia nazista.

Pequeno parentesis: uma reportagem da Record, ou foi da Globo, na verdade tanto faz, enfim, a reportagem falava de um duplo assassinato no Paraná. Durante as investigações, a polícia descobriu que os assassinados, assim como o assassino, faziam parte de uma organização que festejava o nascimento (ou era a morte?) de Hitler. Sei que tinha a suástica nazista pintada na parede, cabeças raspadas, um bando de malucos achando o nazismo bonito. A polícia conseguiu umas fotos que foram divulgadas nos telejornais. Fiquei sem palavras (agora). Santa ignorância!

Voltemos a Sartre, assunto mais interessante com certeza. Na peça Huis Clos ele trás elementos importantes da sua teoria/filosofia existencialista, que está significada substancialmente no livro fundamental L'Être e le Néant (O Ser e o Nada), na pele de três personagens simbólicamente mortos e presos "para sempre" num quarto de hotel. Dizem que ele escreveu a peça numa sentada em um café de Paris. Impressionant! Esses personagens não se conhecem quando se encontram, mas rapidamente vão criando intimidade. E cada um no seu turno serve de carrasco para o outro. Temos Garcin, um jornalista covarde, Estela, infanticida, e Inês, assumidamente má.

Primeiramente Sartre representa que somos condenados a ser livres. Por exemplo, Garcin pergunta à Inês se ele é mesmo um covarde. Ela responde: "mas eu não sei de nada, meu amor, eu não estou na sua pele. É você quem decide."

Ah! importante, esse lugar onde eles estão, vem-se a descobrir que é o inferno. Eles sentem que vão ficar lá por toda eternidade, juntos e dependentes uns dos outros. Então, Garcin, no climáx da peça e da sua loucura, compreende que está no inferno, e diz: "[...] Ah, vocês são só duas? Eu pensei que vocês eram em maior número. (Ele ri) Então é isso o inferno. Eu nunca poderia imaginar... Vocês se lembram: o enxofre, a fogueira, a grelha... Ah! Que brincadeira. Não há necessidade de grelha: o inferno, são os Outros (L'enfer, c'est les Autres)."

No prefácio de 1965, após severas críticas, ele se explica dizendo que nem todas as relações humanas são um inferno. O que ele quis demonstrar foi simplesmente a importância capital dos outros para cada um de nós. Essa relação entre eu e o outro, quando mal-sã pode realmente ser um inferno. Não quer dizer que toda vez o outro é um inferno. Daí a responsabilidade de cada um usar sua liberdade e escolher o caminho que lha agrada.

Além disso, ele mostra, através do absurdo (as pessoas são na verdade mortas-vivas, simbolicamente falando) a importância da liberdade em nossas vidas, ou seja, a importânica de mudar de um ato para outro. O termo mort-vivants (mortos-vivos) vem dessa afirmação da liberdade. Muitas pessoas caem na armadilha dos hábitos, dos costumes e da preguiça, são julgados e sofrem com isso, mas não fazem nada para mudar. Por isso que os três personagens estão presos num quarto do qual não querem ou não conseguem sair. Até aparece, num dado momento da peça, uma oportunidade em que a porta do quarto se abre, mas eles não saem, têm medo. Segundo Sartre, "L'homme s'installe dans le confort de la routine et oublie qu'il a de la liberté." (O homem se instala no conforto da rotina e esquece que é livre).

Cada um pode mudar de rumo quando não está feliz ou satisfeito com ele, somos livres para isso. Mas no caso de não mudarmos, é também um escolha livremente tomada. Deve ser por isso que ele diz que somos condenados a ser livres.